quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Criação (im)perfeita

Quero ler este livro de Marcello Gleiser.

A tal vontade...

Já há muito ando para escrever aqui. E tenho vindo a adiar a minha vontade de o fazer, por razões diversas. Agora, decidi que não vou adiar mais e vou simplesmente ocupar um pouquinho que seja do meu tempo a escrever o que me vai na alma. A lançar palavras ao vento... Com a chegada do Outono, tivemos uns dias quentes, muito quentes, demasiado para esta altura do ano, mas souberam bem. Apesar de alguns momentos muito agradáveis, os ânimos por cá por dentro também esquentaram um pouco demais. Talvez seja necessário de vez em quando. Talvez. Depois, chegou o friozinho e a chuva e o vento, muito. Sabe-me bem, apesar de tudo. Já tinha saudades do Outono, das folhas secas, das castanhas e do aconchego da manta no sofá, com a chuva a cair lá fora. E agora, veio Novembro, está tudo mais calmo cá dentro. E o calor que sinto é mais profundo e meu. Dei por mim, há dias a dizer que considero ser uma pessoa feliz, porque sou inteira. Já tinha pensado isto algumas vezes, mas desta tomei uma consciência diferente do que isso possa significar. Nestes últimos meses, o tão famigerado relógio biológico tocou, toca, tem tocado muito. E o toque tem aumentado de intensidade. Já deixou de ser uma "vontade" externa e um projeto para o futuro, é mais uma coisa cá de dentro, agora. Uma vontade que parece ir além do meu simples gosto (ou adoração?) por crianças e por pessoas em geral. Sinto vontade de criar vida, de transferir algo meu, de passar a um novo nível de sabedoria, essa que penso que só é possível quando criamos um outro ser e quando participamos de modo ativo, no papel principal, na sua educação. Quero crescer mais e mais. E sentir o tal amor incondicional por outro ser humano. O tal amor supremo de que as Mães falam. Como se o resto da minha vida já não fosse suficiente. Será esta a condição humana? Nada nos chega e nada é suficiente? Ou vamos sentindo necessidades diferentes conforme a passagem do tempo e o nosso crescimento enquanto pessoas? Talvez seja isso. Houve um momento de um destes dias em que senti uma sensação muito estranha e inédita em mim: pela primeira vez (que me lembre) senti uma falta de sentido na minha vida que me pareceu abissal. Nesse momento, pensei que a minha morte não seria algo assim tão pouco viável, tendo em conta que nesse momento, não via razões suficientemente válidas para continuar a viver. Como veio, essa sensação também se foi, desvaneceu-se mais ou menos rapidamente. E a tal vontade, vem. Surge muitas vezes. E, de modo autêntico, começa a permanecer. Toda e qualquer vontade similar das pessoas à minha volta não é nada comparada a esta, que é minha. Minha e independente de quaisquer pressões à minha volta e também da restante conjuntura que não é favorável à concretização imediata da minha vontade. Mas isso não importa, pois a tal vontade existe à mesma. Há que aprender a lidar com ela e a esperar pela sua desejada concretização.

domingo, 16 de outubro de 2011

Pôr-do-Sol

Uma das fotos mais bonitas que tirei, de um entardecer em Setembro (dia 6) que tive o privilégio de viver, num momento que fica num cantinho especial da memória.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Pelo sentir

Para pensar...ou não...


«Entender, mais pelo Sentir que pela Razão
Uma verdade só o é quando sentida - não quando apenas entendida. Ficamos gratos a quem no-la demonstra para nos justificarmos como humanos perante os outros homens e entre eles nós mesmos. Mas a força dessa verdade está na força irrecusável com que nos afirmamos quem somos antes de sabermos porquê.
Assim nos é necessário estabelecer a diferença entre o que em nós é centrífugo e o que apenas é centrípeto. Nós somos centrifugamente pela irrupção inexorável de nós com tudo o que reconhecido ou não - e de que serve reconhecê-lo ou não? - como centripetamente provindo de fora, se nos recriou dentro no modo absoluto e original de se ser.
Só assim entenderemos que da «discussão» quase nunca nasça a «luz», porque a luz que nascer é normalmente a de duas pedras que se chocam. Da discussão não nasce a luz, porque a luz a nascer seria a que iluminasse a obscuridade de nós, a profundeza das nossas sombras profundas.

Decerto uma ideia que nos semeiem pode germinar e por isso as ideias é necessário que no-las semeiem. Mas a sua fertilidade não está na nossa mão ou na estrita qualidade da ideia semeada, porque o que somos profundamente só se altera quando isso que somos o quer - e não quando nós o deliberamos. Assim nasce um desencontro quantas vezes entre a mecânica dos nossos raciocínios e a verdade que em nós já é morta. No hábito dos gestos, as mãos tecem ainda na exterioridade de nós a plausibilidade do que em nós já não é plausível. Então nos é necessário substituirmos toda a aparelhagem de que nos serviríamos e já não serve. Surpresos olhamos quem fomos porque já nos não reconhecemos.
Atónitos perguntamos como foi possível?, quando, onde, porquê?, ao espanto da nossa transfiguração, ao incrível da cilada que nós próprios nos armámos, mesmo quando foi a vida que a armou; porque tudo quanto é da vida, e dos outros, e dos mil acontecimentos que quisermos, só existe eficaz e real quando abre em evidência na profundidade de nós. Como aceitar assim a força da razão, se a força dela está onde ela não está?»

Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo'